quarta-feira, 30 de junho de 2010

Continuação.

As duas opções apresentadas por ela, eram potencialmente verdadeiras e aquela situação inesperada estava o deixando extremamente irritado. O nervosismo fazendo bater cada vez mais forte o coração. E por mais que a carga emocional e toda adrenalina daquele instante o enduzisse a atirar, a consciência dele dizia o contrário. Porque apertar o gatilho, seria atirar contra si mesmo. Afinal, ela refletia tudo aquilo que ele sentia: uma dor tão profunda que dava falta de ar. Falta de esperança e de visibilidade de qualquer coisa que motivasse viver. Viver pra quê? Pelo simples prazer de respirar? Só de pensar em enfrentar os dias já causavam desanimo. A todo modo, morrer seria a melhor opção, porquê ele estava sem coragem de viver. Contudo, viver seria a melhor alternativa, pois ele não tinha coragem de se matar. Covarde em todas as hipóteses: Morrendo, matando, vivendo, pouco importa. Todas as direções apontavam para um só destino.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Esqueçamos de tudo e marquemos um encontro, às duas da tarde na praça, na minha casa, no Arpoadro ou no inferno. Com adrenalina, com medo, com vontade, com falta de racioncínio fazendo as mãos tremerem. Marquemos um novo primeiro beijo; Marquemos, rapidamente, um novo primeiro beijo; Marquemos, logo porquê eu tenho pressa em voltar a ser criança.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Instintivamente, ela implorou a clemência dos desesperados. Mas teve uma segunda reação. Lutar por quê? Tentaria se salvar como um anjo maldito que luta pelo amor no inferno?

Num ato de liberdade ela gritou:

-Vai em frente! Eu não vou te dar nada, então atira!

Ele não esperava por isso, mas não se intimidou:

- Passa tudo!

Ela gritou:

-Atira! Você pode levar tudo o que quiser de mim, mas não sem levar uma dose de culpa. Ou você atira em mim e vai embora se sentindo culpado ou você não atira em mim e vai embora se sentindo um covarde. O que você é? Covarde ou culpado?


-Cala a boca! Você não tem medo de morrer, não?


Não!


Pronto, ele estava desestruturado.

[continua]

domingo, 22 de novembro de 2009

Cala a boca e beija logo.

- ...Eu sou arquiteto e estou morando e trabalhando em Angra dos Reis. E você, o que faz?

- Sou estudante de publicidade... Então, você está reconstruindo Angra? rs

- haha Sim, de certo modo. Há muita coisa mal feita lá; Estou dando um toque de bom gosto e sofisticação naquele lugar.

- Sim. Eu aprecio bastante um estilo mais sofisticado e tal, mas enxergo beleza em trabalhos mais brutos e estética menos refinada. Porque esses projetos mais simplistas mostram a verdadeira essência do ser humano, revelam o lado mais intuitivo, mais instintivo, mais primitivo. É através do básico que se forma tudo. Inclusive o sofisticado.

- Nossa, muito bom o seu ponto de vista. [beijo]


* pista de dança da The Week, 02:49 da madugada*

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Desestruturação de uma identidade e total falta de noção de consciência de certo e errado. Era o que se via ali.
Uma pessoa desarmada, desamada, desalmada e, sobretudo, desanimada. Quando falo desalmada, me refiro ao roubo do espírito, da alma. Levaram a felicidade e aquela alegria de viver, as esperanças, a inocência...


Ela vagava pelas ruas daquela Ipanema deserta que só se encontra tão melancólica nos dias frios. Como uma música do Damien Rice. Não conseguia enxergar nada além de sua dor; nenhuma esperança que a fizesse esquecer; nenhum abraço que lhe aquecesse. Frio, ela sentia muito frio. Como aquecer um corpo sem alma?





Ele estava nervoso. Precisava encontrar alguém que lhe desse o que queria. O que ele queria? Nem ele sabia dizer.

Quando não se tem nada e não se sabe o que querer, tudo o que vier é lucro. Mesmo se o que ganhar, não seja o que quer. Perder, ganhar, tudo é a mesma coisa; só depende do ponto de vista.

Também estava desestruturado. Não havia nada nem ninguém que simbolizasse algo feliz.





Subitamente, ele levantou de onde ele estava sentado e reuniu coragem suficiente para fazer aquilo que ele se propôs a fazer.

Andou em passos largos - não podia perder a coragem. Ele era um bandido e tinha que agir como tal.

Viu alguém mais a frente. Andou mais rápido. Sim seria ela.





Ela sentiu a presença de alguém vindo atrás. Andou mais rápido. Olhou para os lados, não viu ninguém; As ruas estavam desertas. Andou mais rápido.



Ele acelerou seu andar pra acompanhar aquela mulher. Não deixaria ela fugir. Seria ela.



Antes que ela pudesse fazer alguma coisa, foi puxada pelo braço.



-Passa tudo agora, porra!



-Me solta moço, por favor. [choro]


[CONTINUA]

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Quando a ditadura me fez graça.

Num dia infernal de verão onde o sol beira os quarenta graus, a única coisa que um adolescente pensa em fazer é chegar em casa, tomar banho, almoçar e ir jogar futebol. Mas meus desejos foram fortemente reprimidos, pois eu teria que assistir o discurso brilhante e espalhafatoso que o excelentíssimo presidente João Figueiredo faria para mais de três mil alunos em praça pública.


A minha ansiedade em ir pra casa, unida com o calor desesperador que fazia naquele momento produziu em minha cabecinha tropicalista um involuntário desejo de protestar. Por descaso do destino ou travessura do acaso um colega do primeiro ano tinha consigo, uma cartolina branca e canetas. Imediatamente tive uma idéia; Lembrei-me do quadro humorístico que Jô Soares tinha na televisão e escrevi no papel: "Vai pra casa Padilha!"


Ergui com satisfação, o cartaz ao máximo que pude. As meninas deviam estar pensando entre si: " Uau! que garoto transgressor!"- imaginei.


As risadas foram se propagando como um contagio e meu irreverente protesto chamou a atenção de todos - inclusive de quem não devia. Militares que passavam de caminhão pela avenida enxergaram na minha despretenciosa brincadeira uma ameaça. Foram em minha direção e falaram: -Tá preso, anarquista!


Fui levado a uma sala que ficava num casarão ali mesmo no centro da cidade. O soldado me levou até o seu superior. Um senhor alto de bigodes que vestia uma farda condecorada e trazia consigo uma carranca ao invés de um rosto me fitou com o desdém comum em sua "espécie" e perguntou ao seu subordinado:
- Qual a acusação?
O próvido soldado respondeu:
- Incitação a desordem e insulto ao presidente. É um anarquista!
O senhor me encarou e perguntou:
- A mando de quem você fez isso? De qual movimento você faz parte?
Silenciei. Como explicaria que tudo aquilo não passava de uma brincadeira?
- Responda, moleque! - o velho barbudo estava se irritando.
Pensa! Pensa! Fala alguma coisa! - Por que minha avidez só era dispertada para produzir inoportunidades?
O homem velho já havia perdido a paciência e vociferava ameaças. E eu dominado pela tensão e pelo medo falei a primeira asneira que me veio a cabeça:

- Jô Soares!

Através da expressão de incredulidade do general, supuz que o estrago havia sido ainda maior e imaginei que, dessa vez, eu iria me ferrar. Porém, para o meu alívio, o senhor velho deduziu que tamanha demência só poderia ser devaneio de uma mente jovem, criativa e desocupada. Logo, chamou o diretor do colégio, que prontamente, desfez o mal entendido.
No caminho de volta para casa, percorri os últimos acontecimentos.
- Um dia contarei essa história para meus filhos - Sorri mentalmente.

sábado, 30 de maio de 2009

Santa Maria do circo

"Respeitável público, com vocês uma alegoria do mundo e da condição humana: a história de uma trupe circense desgarrada que funda uma sociedade em pleno deserto mexicano.
Formado por anti-heróis como Barbarela, a mulher-barbada, e Natanael, o anão megalomaníaco, o grupo busca a própria redenção em meio ao absurdo. Para construir uma nova cidade, seus integrantes delegam uns aos outros papéis que consideram fundamentais em uma sociedade: médico, padre, militar e prostituta são alguns personagens que eles passam a encarnar. É a vez de o público ser protagonista do circo."

Os primeiros minutos da peça "Santa Maria do circo" causaram em mim uma frustração momentânea, dada a expectativa que eu alimentei lendo a sinopse. Foram momentos esperando o que deveria acontecer e que, no final das contas, acontece. O autor foi muito feliz em comparar a vida humana com suas misérias, tristezas e falhas com uma trupe de circo fracassada, decadente, esquisita, sobras de alguma coisa que eles poderiam ter sido mas não foram- por mérito próprio ou pelas circunstâncias de suas vidas.
Talvez o tom de comédia da peça sirva pra demonstrar que assim como na vida real existe uma "felicidade" que serve para disfarçar, maquiar a tristeza e a dor. Algo como "tampar o sol com a peneira". Bom, eu prefiro a legitimidade da dor que a felicidade maquiada. As piadas de humor negro preconceituosas refletem a progressiva decadência humana. Talvez rimos de nervoso ou hábito, algo que no fundo, analisado friamente, não tem graça nenhuma.
A peça emociona ao jogar na cara do espectador sutilmente as diferenças entre dois irmãos donos de um circo que se desfaz. São parecidos fisicamente mas existe uma grande diferença: a competência de um é o inverso do outro e isso incomoda pois nos projetamos e pensamos nos perfis dos dois personagens. Afinal, quem somos? O irmão fracassado que só carrega consigo a figura mórbida de um porco moribundo ou o irmão eficiente, vencedor que proporciona alguns momentos de felicidade, ilusão e mágica para as pessoas (espectadores).
O ponto alto do espetáculo é a cena em que o contorcionista revela as suas aspirações sobre um futuro e tudo que ele acredita que poderá ser um dia. Seus joelhos doídos, feridos e machucados o impedem de caminhar, mas suas esperanças permanecem ilesas. Suas pernas não o impedem de sonhar.
Essa encenação me propôs uma profunda reflexão sobre o meu mundo (idealizado ou não) e as minhas experiências sensíveis de contato com outras pessoas. É tão difícil lidar com os sentimentos alheios. Todas as minhas ações me são devolvidas em forma de atitudes atingindo dois pontos vitais e dolorosos: mente e coração. Quando atinge a mente, o quadro ainda pode ser revertido e eu posso, através de deduções lógicas, decidir o que é bom ou ruim pra mim, sem sofrer grandes consequências. Mas quando o coração é atingido, aja Nietzsche pra tentar resolver. Os Sofistas que me desculpem, mas Platão tinha razão.